Bondage para iniciantes
O bondage corre mal por razões que nada têm a ver com kink e tudo a ver com preparação: um nó que não se desfaz depressa, um pulso que adormece, uma noite que acaba sem que depois se diga uma palavra. Este guia trata das partes que fazem a diferença e do que comprar primeiro.
Combinem antes de amarrar seja o que for
A conversa antes da primeira vez é precisamente a parte que se salta e de que depois se sente falta. Três perguntas cobrem quase tudo: o que queres experimentar, o que está fora de questão e como paramos.
Façam uma lista de sim, uma de talvez e uma de não. Essa lista de não não se renegoceia depois, nem no próprio momento, porque a meio de uma cena ninguém está em condições de repensar.
Combinem quem faz o quê. Trocar de papel a meio é ótimo se era esse o plano, e confuso se não era.
Uma palavra de segurança, e um sinal para quando a boca está ocupada
O sistema habitual são três palavras: verde para continuar, amarelo para abrandar ou mudar alguma coisa, vermelho para parar tudo agora. Funciona justamente porque existe o amarelo. Sem ele, as pessoas aguentam até terem de dizer vermelho.
Vermelho quer dizer parar e desamarrar, sem perguntas naquele momento. As perguntas vêm depois.
Uma mordaça torna a fala impossível, que é todo o seu sentido e ao mesmo tempo o problema. Dê à pessoa amarrada algo para segurar, uma bola ou um molho de chaves, e largá-lo significa vermelho. Três sons altos também servem. Combinem antes de pôr a mordaça, não depois.
O que comprar primeiro
Um kit de iniciação é a forma mais barata de descobrir o que gosta mesmo: normalmente algemas, uma venda, um flogger leve e um pedaço de corda, por menos do que custa uma boa amarra sozinha.
Se preferir comprar uma coisa boa, compre algemas. Põem-se depressa, tiram-se depressa, e perdoam a inexperiência de um modo que a corda não perdoa.
Uma venda dá o maior efeito pelo menor dinheiro. Tirar a visão torna cada toque mais alto, e não há risco nenhum nisso.
Deixe as pinças para mamilos, as gaiolas de castidade e a eletroestimulação para mais tarde. São boas, só não é aí que se aprende.
Algemas, corda e fita
Algemas com forro acolchoado e fivela ou fecho rápido saem num só gesto, e isso vale mais do que qualquer outra característica. As algemas de metal de um kit de brincadeira são a exceção a evitar: apertam sozinhas sob tensão e magoam o osso do pulso.
A corda é a mais versátil e a que demora mais a aprender. Algodão e bambu são macios e perdoam; a juta segura melhor o nó e marca mais. Comece com dois pedaços de cerca de oito metros e aprenda uma amarração simples num braço ou numa perna antes de qualquer coisa decorativa.
A fita de bondage só cola a si própria, nunca à pele nem ao pelo, por isso é o mais rápido desta lista e o mais fácil de cortar. Não respira, portanto mantenha essas sessões curtas.
Use o que usar, uma tesoura de ponta romba ao alcance da mão é a regra. Não uma faca de cozinha.
Coleiras, mordaças e o resto
Uma coleira é sobretudo simbólica, e é esse símbolo que atrai. Entre a coleira e o pescoço devem caber dois dedos, e naquilo que lhe está preso nunca se puxa com força. Uma trela serve para andar ao lado de alguém, não para o conduzir.
As mordaças de bola têm tamanhos e o tamanho conta: a maxila dói mais cedo do que se espera, e vinte minutos é muito tempo. Babar é normal, o que surpreende toda a gente à primeira vez.
O couro e a roupa de fetiche não faz nada de físico e muda o ambiente de uma noite mais do que a maioria dos brinquedos.
Palmadas, da mão à pá
A mão é a melhor primeira ferramenta: sente exatamente com que força chega e não pode enganar-se na distância.
Floggers, chicotes e pás fazem cada um coisa diferente. Um flogger de camurça chega surdo e perdoa muito, o couro arde, um chicote curto é preciso e concentrado, uma pá distribui a força por uma área larga.
As zonas seguras são as nádegas e a parte alta das coxas. Fique longe da zona lombar por cima dos rins, da coluna, do pescoço e das articulações.
Aqueça. Alguns minutos de toques leves mudam a forma como a pele recebe tudo o que vem depois, e saltar essa parte é a razão habitual para uma cena acabar cedo.
A segurança que não se negoceia
Verifique a circulação. Dedos frios, pele branca ou azulada, formigueiro ou falta de sensibilidade querem dizer que a amarra está apertada demais, e isso é um problema para agora e não para depois. Por baixo de qualquer amarra deve passar um dedo.
Nunca deixe sozinha no quarto uma pessoa amarrada, nem por um momento.
Nunca corda à volta do pescoço, e nunca nada no pescoço que suporte peso.
Mantenha as amarras fora das articulações e longe da parte interna do pulso, da axila e da parte de trás do joelho, onde os nervos passam perto da superfície.
O álcool e tudo o que adormece a dor não têm lugar numa cena, pela mesma razão que o lubrificante anestésico: a dor é informação.
Vinte minutos numa posição são mais do que parecem. Mude de posição, ou desamarre e recomece.
Depois
Desamarre pela ordem inversa à que amarrou, e faça isso antes de tudo o resto. Depois calor: um cobertor, água, algo doce, contacto de pele se a pessoa quiser.
Falem também no dia seguinte. O que soube bem, o que não, o que muda. Essa conversa é o que torna melhor a noite seguinte, e é também assim que quem esteve amarrado sabe que houve cuidado consigo.
Uma quebra de ânimo um ou dois dias depois é comum dos dois lados, e passa mais depressa quando ambos sabem que pode vir.
Limpar e guardar
O couro pede um pano húmido e um creme de couro duas ou três vezes por ano. Nunca sabão, nunca o aquecedor.
Algemas de aço e brinquedos de aço lavam-se em água quente com detergente e têm de secar bem.
A corda vai numa fronha em programa frio, seca pendurada numa barra para não ficar torcida, e nunca se arruma húmida.
Mordaças e plugs de silicone aceitam água morna com sabão ou um limpador de brinquedos. Guarde tudo num saco ou estojo, longe do sol direto.
Perguntas frequentes
O que leva um primeiro kit de bondage?
Algemas com fecho rápido, uma venda, um pedaço de corda e um flogger macio. Isso cobre amarração, jogo sensorial e palmadas sem que nada seja extremo, e mostra-lhe em qual dos três vale a pena gastar.
A partir de quando está apertado demais?
Se não conseguir meter um dedo entre a amarra e a pele, está apertado demais. Falta de sensibilidade, formigueiro, mãos frias ou mudança de cor querem dizer desamarrar já. A tensão certa segura sem cravar.
E se quem está amarrado não puder falar?
Combinem um sinal sem palavras antes de pôr a mordaça. Segurar algo na mão e largá-lo é o habitual; três sons altos ou três batidas no colchão servem igualmente. O sinal tem de ser possível na posição em que a pessoa está.
A corda é melhor do que as algemas?
Para começar as algemas são melhores: mais rápidas, mais seguras e difíceis de fazer mal. A corda é mais versátil e mais bonita, e pede prática com uma tesoura de segurança ao lado. A maioria das pessoas acaba por ter as duas.
Que materiais aguentam mais tempo postos?
Algemas de couro acolchoado e de neopreno, corda de algodão ou bambu, silicone e aço inoxidável. Evite metal de roquete que aperta sozinho, qualquer aresta dura contra a pele, e fita diretamente sobre o pelo.